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quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Byron em Sintra... - 5

Quando se fala de Sintra do séc. XIX Byron, é, indubitavelmente, a figura mais recorrente, e onde, aliás, terá escrito uma parte seu Child Harold Pilgrimage, obra apenas editada em 1812, aí dedicando-lhe alguns versos.

Sintra - Séc. XIX


"Eis Cintra e o seu Éden resplandecente surgindo num labirinto multicor de montes e vales (...) Um convento empoleirado no topo de horríveis penhascos, os sobreiros brancos de geada cobrindo as escarpas da encosta, o musgo da serra crestado pelo sol abrasador, o vale sombrio de profundos arbustos inclinados, o meigo azul do mar sereno, as matizes alaranjadas que doiram o mais verde ramo, as torrentes que se precipitam das alturas para os vales, as vinhas lá no alto e por baixo ramos de salgueiros - tudo se combina num cenário grandioso de variedade e beleza."Childe Harold´s Pilgrimage", Canto I, Estrofes XVIII, XIX).

Na segunda feira, 12 de Julho de 1809, deslocaram-se numa caleche rumo Sintra, avistando o palácio de Marialva e o palácio e jardins de Monserrate, palácio onde anteriormente um outro viajante inglês, William Beckford havia vivido, agora deserto. A sua estadia em Sintra durou apenas quatro dias, ficando instalado no Lawrence Hotel.

Hobhouse: na terça feira, 13 de Julho: (...) "de burro, fomos a Nossa Senhora da Pena, ao Mosteiro de S. Jerónimo e ao Cork Convent (Capuchos?) na parte mais alta da região, com 17 franciscanos que não comiam carne nem bebiam vinho e se flagelavam. Descemos então até Colares, bela vila, com vinho abundante, clarete, e tornámos a Monserrate, um palácio só excedido pelo de Marialva em Sintra. Aí jantámos com o bom reverendo Turner. Noite em Sintra.

Na quarta feira, 14 de Julho de 1809, fomos, com Byron, e por sugestão da irmã de Marialva, visitar o seu palácio (Seteais), ricamente decorado em estilo inglês e estivemos na sala onde foi assinada a famosa Convenção de Sintra. Dissémos adeus a Sintra, onde havia no hotel vários hóspedes embriagados e uma mulher suja, irlandesa, nos entregou uma conta monstruosa."

A 16 de Julho Byron escrevia para Inglaterra: 
Ao sr. Hodgson, Lisboa, 16 de Julho de 1809.

"Até ao momento temos seguido a nossa rota, e visto todo o tipo de panorâmicas maravilhosas, palácios, conventos, etc. o que, estando para ser contado na próxima obra, Book off Travelers, do meu amigo Hobhouse, eu não me anteciparei, por agora, de forma antecipada e clandestina.. (...) Devo apenas observar que a vila de Cintra, na Estremadura, é talvez a mais bela do mundo.

Sinto-e muito feliz aqui porque adoro laranjas e falo em Latim macarrónico com os monges, que o compreendem, uma vez que é como o deles, e frequento a sociedade (com as minhas pistolas de bolso e nado ao longo do Tejo, e monto em burros ou mulas (...) Quão alegremente vivemos quando somos viajantes - se tivermos comida e vestuário. Mas, em sóbria tristeza, qualquer coisa é melhor que Inglaterra e eu estou infinitamente divertido com a minha peregrinação, até ao momento. Amanhã começaremos a percorrer cerca de 400 milhas até Gibraltar, onde embarcaremos para Melita (Melilla?) e Bizâncio. Uma carta para Malta aí me encontrará..."


Seteais Sec. XIX
Depois foi o regresso a Lisboa.


Três semanas depois da chegada a Lisboa, Byron e Hobhouse deixaram os aposentos de Buenos Aires em direcção ao cais; em breve atravessaram o Tejo a caminho da fronteira espanhola e do Mediterrâneo.


Após aquela primeira experiência em terra alheia, com eles seguia o inquieto Cavaleiro Haroldo, como um Ulisses sem Ítaca, romântico condenado a descobrir e a descobrir-se na peregrinação incessante pelos caminhos da poesia e da vida.

Com a devida vénia de "(Im)pertinências"


ESTADO DE SÍTIO: Um estado capturado 

Entre a multidão de capturas, continuam a destacar-se as da Ongoing - um polvo em crescimento acelerado. (*) Começou por ser uma criatura dos banqueiros do regime (os Espíritos) por interpostas pessoas (a dupla Vasconcelos & Mora) e aparentemente ganhou asas próprias e aspirações separadas. Continua a recrutar entre a tralha socrática, desde os espiões até ao pessoal político – os últimos foram Costa Pina, ex-secretário de estado do Tesouro e Guilherme Dray, ex-chefe de gabinete de Mário Lino. 

Recentemente, talvez a captura mais notória com mãozinha da Ongoing tenha sido a teia costurada pela coligação maçonaria/PS nas secretas, tornada visível com o trânsito dos espiões directamente para as empresas, levando consigo as informações. O escândalo do espiolhamento pelas secretas dos telefonemas do jornalista que investigava o caso, permitiu iluminar um pouco estas zonas sombrias.

Outro exemplo é o dos militares com as suas desavergonhadas «promoções por arrasto» que o governo socialista deixou apodrecer e legou ao governo actual.

O caso da chantagem velha de décadas do Bokassa das Ilhas aos governos centrais para lhes extorquir o dinheiro dos cubanos ficará possivelmente na história como um clássico em que o extorsionário insulta os extorquidos antes e depois de os extorquir. Em cinco anos a dívida da república das bananas duplicou e a criatura incha garantindo que «a Madeira tem muito património, graças a Deus (Deus tem aqui as costas largas), … mais do que suficiente para cobrir muitas vezes a sua dívida». Sugerindo talvez que deveria ser feita uma dação da sua obra nas ilhas em pagamento da dívida. Se fosse esse o preço para o país se ver livre dele e do seu bando de extorsionários seria prudente ponderá-lo.

(*) Sobre a Ongoing e o seu deus ex machina já se escreveu bastante no (Im)pertinências – ver por exemplo esta pesquisa.

"Actividades intensas"...

É notável a declaração de Marques Júnior que avança com a hipótese de "alguém, inclusivamente um funcionário dos serviços de informação, estar a agir à margem do funcionamento do sistema, fornecendo notícias ou informações a troco não sei de quê".

Ou seja: com esta conversa acho que querem dar a ideia ao cidadão comum de que tudo isto pode não passar de uma infracção de um qualquer funcionariozeco. É pá, vão dar banho ao cão!

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Descobrindo Arganil...

É muito agradável dar uma olhada para o interior do jardim de infância de Arganil.
Adivinha-se que, por detrás desta arquitectura agradável, as crianças estarão nas "sete quintas".

Existem em Arganil muitas coisas com interesse. O que é preciso é olhar para elas

Alguém acredita?


Após o descrédito total em que as "secretas" estão envolvidas não mais será possível recuperar a credibilidade.

Alguém pode acreditar que a situação se resolve com inquirições, averiguações e processos que não levam a lado nenhum?

Depois de tudo o que de grave se tem constatado o que é preciso dar uma vassourada na instituição e meter na prisão os responsáveis.

Ou será que, mais uma vez, vai ficar tudo em "águas de bacalhau"?


Byron "no terreno"... 4

Lord Byron

Byron e Hobhouse instalaram-se numa hospedaria para os lados de Buenos Aires, zona residencial importante onde habitualmente se hospedavam  os representantes diplomáticos acreditados em Lisboa, burgueses endinheirados no comércio ou na finança e, naqueles tempos belicosos, os oficiais de comando das tropas inglesas estacionadas na capital. Da colina avistava-se Almada e os montes da margem sul, a amplidão do estuário onde fundeavam navios de todas as proveniências e a superfície ondulante dos telhados que desciam até ao Tejo. No dias seguintes os dois companheiros exploraram as imediações e partiram à descoberta da cidade.

Se se indagar que espécie de convívio Byron terá tido com os habitantes de Lisboa, a resposta passa pelas referências às visitas efectuadas aos conventos da capital. Com efeito, o simples contacto com os transeuntes apenas pode ter dado ao poeta uma ideia sumária da variedade de tipos de humanos que caracterizava a cidade. Desconhecendo a língua portuguesa à excepção de uma  ou outra imprecação obscena que diz ter aprendido, Byron estava privado do instrumento de comunicação que lhe teria permitido formar uma opinião menos superficial sobre os lisboetas. É com o clero do Mosteiro dos Jerónimos e do Convento de Jesus que os dois viajantes conseguem trocar algumas impressões, utilizando o Latim. Ficaram, porém, surpreendidos com a notória ignorância dos monges e Hobhouse regista que um deles, ao mostrar um quadro representando soldadesca munida de armas de fogo e canhões, disse tratar-de de uma batalha na antiga Roma... Mais grave do que a escassez de livros ingleses na bibliotecas monásticas lhes pareceu o facto de vários escritos de enciclopedistas franceses se encontrarem no rol de livros de consulta proibida. Portugal parecia ainda não haver ainda aberto as portas ao espírito renovador do racionalismo europeu.


Hobhouse
Durante as suas deambulações os dois companheiros tiveram ocasião de admirar o traçado neoclássico da Basílica da Estrela, de construção recente, e visitaram o Cemitério Inglês no propósito de prestar homenagem à memória do romancista Henry Fielding, que em 1754 demandara Lisboa e aqui viria a falecer; o tempo e a incúria haviam, porém, apagado vestígios da sepultura, impossível de localizar.

Na parte baixa, ao topo do Rossio, Bayron encontrou o Palácio da Inquisição, cuja influência tinha vindo a diminuir em finais do século XVIII, mas que ainda em 1809 mantinha certa actividade, s´o extinta com a revolução liberal. Um pouco mais a norte, situava-se o Teatro da rua dos Condes, construído no local de um velho pátio que o terramoto arrasara. Nesta sala de espectáculos acanhada e de precárias condições actuavam por essa altura companhias portuguesas  contratadas pelo empresário Manuel Baptista de Paula; sabe-se que Bayron e Hobhouse assistiram a récitas por mais de uma vez, mas, como seria de esperar de espectadores habituados ao nível das encenações britânicas, ficaram com uma impressão muito desfavorável acerca dos nossos actores e mostraram-se escandalizados com os movimentos lascivos de algumas danças.

A passagem de Byron pelos teatros lisboetas ficou, de resto, assinalada por um episódio lamentável que o próprio poeta relata numa nota a "Child Harold´s Pilgrimage":
"Uma vez, quando me dirigia ao teatro, às oito da noite, numa carruagem, acompanhado de um amigo (...) obrigaram-me a parar em frente de uma loja aberta; se não tivéssemos a sorte de ir armados não tenho a menor dúvida de que não teríamos sobrevivido para contar a aventura."
O amigo que com ele seguia era, evidentemente, Hobhouse em cujo diário de viagem se pode ler uma referência ao assalto, datada de 18 de Julho:
"Às nove e meia, fui com Byron numa caleche ao teatro da Rua dos Condes. Fomos atacados por quatro homens, a meio do caminho, regressámos a casa a pé."
Não restam dúvidas que os dois relatos tiveram origem no mesmo facto e a disparidade que se verifica na hora, pormenor irrelevante, pode atribuir-se a uma imprecisão do poeta que escrevia anos depois do acontecimento, enquanto Hobhouse fazia o registo diário de todas as peripécias ainda frescas na memória.

A menos que se admita uma outra cena de violência em Lisboa, a que não há a menor referência nas fontes, a aventura de 18 de Julho deve ter constituído o núcleo factual em torno do qual a fantasia donjuanesca de vários autores teceu a historieta de sabor melodramático que ficou indissoluvelmente ligado à visita de Lord Byron. Certa noite, à saída do Teatro de São Carlos, o poeta teria sido sovado por um marido ciumento, disposto a reabilitar a sua honra ultrajada. Alguns não hesitam mesmo em afirmar que foi esta desagradável experiência que determinou a hostilidade de Byron para com os portugueses nas estrofes de "Child Harold Pilgrimage".

Torna-se muito difícil aceitar esta interpretação simplista da obra e personalidade de Byron e isto por duas razões. Em primeiro lugar, nenhum dos autores que repetem e comentam o episódio se deu ao trabalho de indicar testemunha presencial ou fonte documental que possa abonar a veracidade ou sequer a verosimilhança do facto; e nem nos textos bayronianos nem no diário de viagem de Hobhouse existe o menor indício que possa levantar suspeita sobre devaneios sentimentais do poeta em Lisboa.

Para a sensibilidade byroniana do cavaleiro Haroldo, a passagem por Lisboa constitui uma revelação, ou pelo menos uma confirmação, de que o ideal romântico de vida não era realizável no espaço urbano. Nas estrofes do poema sobre a cidade perpassam as contradições entre a paisagem idealizada do lugar ameno de longe entrevisto e a decepção provocada pelo contacto imediato com a realidade dos locais e dos homens que não souberam aproveitar os dons espontaneamente oferecidos pela obra da Criação. A mais funda motivação do passo parece, pois, residir não nos supostos ressentimentos de Byron mas antes na consciência rousseauista do constante litígio entre a natureza e a civilização que, de resto, constitui um dos temas fundamentais glosados no poema. Defraudado na sua esperança, o protagonista voltar-se-á para os arredores de Lisboa e irá encontrar numa excursão às serranias de Sintra a possibilidade de experiência paradisíaca que a urbe negou.

Voltaremos...

domingo, 28 de agosto de 2011

Bayron e outros viajantes... - 3

Giuseppe Baretti
Se nos detivermos com alguma atenção sobre o que outros viajantes, ingleses ou não, disseram sobre  Lisboa, poderemos constatar que estes são praticamente unânimes  no elogio às belezas da cidade vista do rio.
Vejamos algumas das impressões desses viajantes e o que eles pensavam das clássicas comparações com Nápoles e Constantinopla:

Baretti (1762): "A vista é das mais grandiosas e pitorescas do mundo. Entre as cidades que visitei nenhuma a pode igualar, a não ser Génova com os seus subúrbios... O conjunto, quando observado do meio do rio merece a obra de algum benévolo demiurgo."

Semple (1805): "Seja, porém, como for, o que não há dúvida é que a situação é admirável; e a cidade, cheia de igrejas, palácios, zimbórios, pináculos, erguendo-se da água até escalar os cimos de numerosas colinas oferece da baía uma das mais nobres que podem imaginar-se, e superior talvez à de qualquer outra cidade do mundo... mas ao desembarcarmos a ilusão desvanece-se..." 

Lady Emmeline Wortley


Lady Emmeline Wortley (1854): "Poucas capitais há na Europa que se lhe possam aproximar, no pitoresco da situação...É, sem dúvida, um panorama soberbo... Em alguns aspectos Lisboa é muito inferior a Nápoles, mas em outros é talvez superior."

Armand Dayot (1887): "A impressão desagradável que se experimenta ao desembarcar nos cais não faz senão aumentar, à medida que se penetra na cidade alta, subindo com dificuldade a íngreme ladeira das suas ruas, mal calçadas quase sempre. Que é feito então dessa maravilhosa cidade de que admirávamos, no meio do Tejo, as brancas casas deslumbrantes e os jardins verdes e floridos? Vagueio a cada passo em labirintos nauseabundos, entre fachadas sem elegância e dum pardo sujo. Por detrás de altos muros, os jardins desapareceram; aqui e ali algumas praças públicas orladas de árvores poeirentas ornadas  de estátuas grotescas... as igrejas de Lisboa parecem-se quase todas com as tristes igrejas italianas do século XVII; o mesmo estilo rocócó, a mesma falsa magnificência interior, os mesmos excessos decorativos... Quanto aos três palácios régios da Ajuda, Necessidades e Belém, são de uma desesperadora banalidade arquitectónica... Lisboa mereceria ser denominada a capital do mau gosto."

Em 1817, em carta data de Veneza, a 11 de Abril, Byron dirigindo-se a Moore: "Não vou a Nápoles. É apenas a segunda das vistas de mar em toda a Europa, e eu vi a primeira e a terceira, isto é, Constantinopla e Lisboa. Esta, a bem dizer, é um panorama fluvial, mas colocam-na abaixo de Istambul e Nápoles, e acima de Génova."

Conforme podemos constatar pelos relatos dos viajantes  sobre Lisboa de outrora temos ocasião de verificar que eles são praticamente unânimes em elogiar as belezas da cidade vista do rio. A uns agrada sobremaneira a linha sinuosa das colinas e vales, a outros fascina o colorido das vinhas e pomares dos arrabaldes, outros ainda deleitam os olhares na brancura do casario disperso, entrecortado pelas torres das igrejas.

Não se justifica, portanto, atribuir a Byron que na sua aparente contradição face ao que viu do rio e o que depois encontrou dentro da cidade, qualquer revanchismo balofo que tenha porventura a ver com o ajuste de contas de um marido ciumento.


Voltaremos...